Crítica de “The Dirt”, o filme sobre o Mötley Crüe

“The Dirt”, disponível na Netflix, conta a história real da banda californiana Mötley Crüe, baseada no livro homônimo que seus membros publicaram em conjunto.

A trajetória começou nos loucos anos 1980, na cena roqueira da Sunset Strip. O diretor do filme, Jeff Tremaine (criador da série “Jackass”), opta por uma linguagem frenética, que tem tudo a ver com o modo de vida sem freios dos músicos do Mötley Crüe. A primeira sequência mostra essa região da Sunset Boulevard, levando o espectador para dentro da casa noturna Whiskey a Go Go, onde rolavam drogas e sexo em todo o canto, enquanto as bandas se apresentavam num pequeno palco. A cena é filmada como se fosse um plano sequência, sem cortes, mas com uso alternado de slow motion com parte acelerada para apresentar cada um dos quatro membros.

Os músicos se alternam na narração, conversando com o público, e o primeiro que assume essa função é Nikki Sixx (Douglas Booth), o baixista, uma boa escolha para situar os anos 1980 como resultante da conflituosa década anterior. Sixx apanhava do pai, que largou a família, e mesmo pequeno, enfrentou a mãe, que trocava de namorado toda semana. Essa sequência parece um pouco lenta, principalmente depois do frenético começo do filme, mas é importante para revelar o integrante do Mötley Crüe com background mais problemático. Sixx foge de casa, vive nas ruas, adota outro nome e começa a trabalhar como músico.

O baterista Tommy Lee (Machine Gun Kelly) entra na estória fazendo uma brincadeira para o espectador com o que Sixx disse. A família de Lee é bem mais normal, e ele conhece Sixx em uma lanchonete depois de um show da antiga banda dele. Surge depois Mick Mars (Iwan Rheon), que aparece em um ensaio do novo grupo que Sixx e Lee estão formando, e toma o lugar do guitarrista. Logo chamado de velho pelos dois outros rapazes, Mars revela ao público que já sabia que tinha um problema degenerativo em sua coluna (chamado de espondilite anquilosante), mal que o perseguiria por toda a vida.

Os três buscam um vocalista e encontram Vince Neil (Daniel Webber), já em atividade em bandas covers. Vince se apresenta ao espectador dizendo que ele cantava só para poder atrair as mulheres. Mars cria o nome Mötley Crüe e surgem os primeiros shows, que atraem o público da Sunset Strip, chamando a atenção de um produtor da gravadora Elektra e de um empresário. O diretor Jeff Tremaine brinca com o espectador, mostrando dois empresários, as tirando um deles, porque ele não entrou no filme.

O Mötley Crüe rende uma cinebiografia mais interessante que o Queen, cuja história foi retratada em “Bohemian Rhapsody” (2018), porque os músicos californianos tiveram experiências muito mais loucas, envolvendo sexo, bebidas e drogas, além de destruição de hotéis. Algumas passagens dessa vida desenfreada estão em “The Dirt”, como a turnê conjunta com Ozzy Osbourne, ou o casamento de Tommy Lee com a atriz Heather Locklear. Há uma sequência original onde Tommy Lee mostra como é um dia na sua vida durante uma tour.

Algumas cenas caem no clichê, como o acidente de carro envolvendo Vince Neil que resultou na morte do vocalista da banda Hanoi Rocks. Quando os dois saem de uma festa em casa para comprar bebidas, fica fácil de prever que uma tragédia está para ocorrer, afinal, para quê se mostraria uma situação banal como essa num filme tão agitado?

Mesmo apresentando alguns alívios cômicos, “The Dirt” não se esquiva de mostrar os momentos mais dolorosos da banda, na época do álbum “Theatre of Pain” (1985), quando mergulharam na heroína, uma droga mais pesada. Há detalhes chocantes com um dos membros injetando a agulha da seringa até no pescoço. O filme, pelo uso das drogas e pelas cenas de sexo, tem censura 18 anos. Nessa fase, a morte de Nikki Sixx chegou a ser noticiada. Começou um distanciamento de Vince Neil com os outros membros, pois o vocalista decidiu ficar limpo depois do acidente de automóvel. Quando todos resolveram segui-lo na reabilitação, o Mötley Crüe alcançou sucesso estrondoso com o álbum “Dr Feelgood” (1989). Porém, a ausência de drogas e bebidas, somada às exaustivas turnês, levou ao estresse e às crises familiares. Os conflitos ressurgem e Vince Neil sai da banda, momento que coincide com a dolorosa perda que ele sofre com a morte da sua filha. Assim como no acidente, esse momento é marcado por fade outs sucessivos acentuando a tristeza do vocalista.

A banda sem Vince Neil perde prestígio, e os músicos se reconciliam.

Com tantas passagens emocionantes, parece irrelevante “The Dirt” abordar aspectos comerciais como a negociação para a banda adquirir os direitos sobre suas próprias músicas, que pertenciam à Elektra. O filme, porém, mantém o ritmo acelerado e o diretor Jeff Tremaine fez uma escolha essencial para levar essa história para um público maior do que os fãs da banda, que foi acertar na identidade entre a tresloucada vida do Mötley Crüe e a linguagem moderna do filme, que inclui os efeitos de chicote de câmera, recursos gráficos, e, principalmente, a quebra da quarta parede, fazendo os músicos falarem diretamente para o público.

Outro acerto dessa produção da Netflix foi escolherem atores não conhecidos para os papéis dos integrantes do Mötley Crüe, pois isso facilita a aceitação deles como personificando os músicos famosos. O mais conhecido do elenco é David Costabile (da série “Breaking Bad”), que faz o empresário Don McGhee. Alguns ainda se lembrão de Kathryn Morris (da série “Cold Case”), como a mãe de Nikki Sixx.

Não perca os créditos finais, que mostram cenas reais ao lado do que foi levado ao filme.

Por Eduardo Kaneco

Matéria publicada no site Leitura Fílmica – www.leiturafilmica.com.br

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