Os 50 anos de Max Cavalera

Max Cavalera (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Muitas vezes a criatura engole o criador; em outras, a criatura fica tão impregnada no criador que ambos se fundem indelevelmente – em determinados casos, tornam-se sinônimos, quando não uma identidade única.

Vinte e três anos depois da traumática separação no auge da carreira, ainda é difícil dissociar Sepultura da figura de Max Cavalera, o fundador de um nomes mais importantes da história do metal na então improvável Belo Horizonte (MG).

Ao chegar aos 50 anos de idade, o nome mais importante do rock pesado brasileiro nunca fez força para desestimular as associações com a ex-banda. Evita ser explícito, mas semre deixa transparecer que concorda com as afirmações de que, ainda hoje, seu nome é um sinônimo da banda fundamental que ajudou a criar com o irmão, o baterista Iggor.

Motivo de infortúnio para músicos que romperam com o passado (deliberadamente ou não), esse tipo de associação Max-Sepultura nos dias de hoje alimenta uma máquina de sonhos que beira a ilusão.

Se em muitos casos na história do rock o inferno congelaria antes de ocorrer algumas reuniões de bandas, como sentenciou a Glenn Frey a respeito dos Eagles – mordeu a língua, pois os caras voltaram a tocar juntos -, no caso do Sepultura a coisa contornos mais dramáticos a cada entrevista do guitarrista aventando a hipótese do retorno da formação clássica, aquela que se separou em 1996.

É evidente que Max nao parou no tempo e construiu uma carreira sólida e eficiente com a banda Soulfly e com o projeto Cavalera Conspiracy, com o irmão Iggor. À imagem de ídolo do metal foi acoplada a de um artista inquieto, inovador e inventivo, apesar de o Soulfly passar longe do carisma e do sucesso de sua ex-banda brasileira.

A reinvenção foi necessária e deu certo, coisa semelhante ao que ocorreu com o Sepultura pós-separação, o que ajuda a entender porque uma reunião, mesmo que para apenas um show, é tão improvável. E não se trata nem de sintonia ou de mediação a respeito das desavenças: são dois mundos completamente diferentes e distantes.

A sombra do Sepultura não foi suficiente para turvar o futuro de Max. Além de ídolo, é um artista cultuado e reverenciado cada vez mais ao chegar aos 50 anos. Só isso já deveria fazer dele um nome que, em alguns momentos, fosse tão incensado como o de sua ex-banda.

Guardadas as devidas proporções, o nome de Max Cavalera é tão forte quanto o do Sepultura em alguns mercados, algo que só teria paralelo em relação a John Lennon e os Beatles ou Ozzy Osbourne e Black Sabbath.

Ironicamente, a impressão que temos é de que isso parece não ser suficiente – ao contrário, serve de combustível para mais boatos e conspirações para que a formação clássica do Sepultura ao menos dê alguma esperança de entendimento.

Não vai acontecer. O inferno precisará congelar e alguns elefantes precisarão voar antes de que isso ocorra.

Nova ironia: a pressão para que o Sepultura se reúna reforça o mito em torno de Max Cavalera: visionário, eclético, inovador e ousado, adjetivos válidos e pertinentes.

Não importa que os dois lados da lenda Seputura se beneficiem da boataria e das esperanças. a imagem de Max Cavalera transcendeu a do ídolo musical para avançar em direção à eternidade.

O Sepultura seguiu em frente e ficou diversificado e muito interessante no século XXI. Não recuperou o mesmo status de antes da separação – nem era essa a intenção, diria o guitarrista Andreas Kisser, que lidera a atual formação -, mas é ainda uma referência importante dentro do metal moderno. Só não há como evitar o crescimento da mitificação do nome Max Cavalera em torno do nome da banda quase um quarto de século depois da separação.

Assim como na vida, muita gente adora mover tudo em razão de vitórias e derrotas, de vencedores e vencidos, uma coisa bem americana e bem business.

Max Cavalera venceu e coninua vencendo, e faz tempo. Sua construção é uma monumental homenagem à música e ao heavy metal. Dependendo do ponto de vista, não tem como haver vitória maior do que esta.

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