Keith Moon, o mestre insano da bateria

Uma banda iniciante, mas com muito gás, toca alucinadamente clássicos do rhythm and blues norte-americano em um pardieiro no oeste de Londres. O quarteto até que é bom, mas o baterista, mais velho que os moleques da frente, sua literalmente para acompanhar o ritmo.

Ao final da apresentação, o cara está esgotado, enquanto os três moleques vibram com o show energético. Antes mesmo de desligar a guitarra do amplificador, o guitarrista escuta um garoto feio, narigudo e cheio de espinhas, com um cabelo ridículo e vestido de forma cafona berrar que o baterista da banda é péssimo e que toca muito melhor.

O guitarrista é arrogante e pedante e detesta ser desafiado. Mandou o moleque sentar na bateria. Quatro minutos depois, o instrumento estava em pedaços e o garoto feio contratado. Foi assim que Keith Moon entrou no Who aos 17 anos de idade, em uma noite fria e chuvosa de 1964 – o grupo ainda atendia pelo nome de High Numbers. Doug Sandom, o demitido, sumiu do mapa. ´

Há 40 anos, o mestre da bateria morreu após voltar de uma festa promovida por Paul McCartney, onde importunou muita gente – era o lançamento de um filme sobre Buddy Holly produzido pelo ex-Beatle.

FOTO: DIVULGAÇÃO

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Quatro meses depois de tocar pela última vez ao vivo, Moon morreria em Londres, vitimado por uma overdose acidental de remédios – foi no dia 7 de setembro de 1978.

Referência no instrumento

Deus do instrumento, ele simplesmente era o ídolo de John Bonham, do Led Zeppelin, que era apenas um ano mais novo. Com seu jeito alucinado de tocar, com as viradas impossíveis e os andamentos improváveis, mudou o jeito de se tocar bateria no rock, asim como John Entiwistle, seu companheiro de banda, revolucionou o baixo.

Nos dois primeiros álbuns do Who – “My Generation” e “A Quick One” – a força rítmica da dupla conduzia as bases pesadas e rápidas de guitarra criadas por Pete Townshend, o líder, mentor e principal compositor do grupo.

Moon não só conduzia, como inovava e criava passagens que surpreendia até mesmo os produtores mais experimentados de álbuns. O jeito alucinado e anárquico virou sinônimo de virtuosismo e inovação, o que era verdade.

O seu modo de tocar era reflexo de sua vida pessoal conturbada e acelerada. Adorava sacanear com todos, bebia além da conta, batia em seguranças, quebrava quartos de hotel, jogava carros em piscinas de hotéis e até  atropelou e matou seu motorista e segurança quando saía de um clube nortuno em Londres, em 1970.

A vida insana de excessos foi demais para a esposa , uma modelo britânica, e para a filha de três anos, que o abandonaram em 1973. Neste mesmo ano, mudou-se para Los Angeles, o que só piorou a situação.

Caiu na bateria, e foi substituído por um espectador

Ao final deste mesmo ano, em um show em San Francisco, após mais excessos de bebidas e tranquilizantes para cavalos (!!!!!), desmaiou durante a execução de uma música. Retirado desacordado, tentou retornar após 15 minutos, mas desmaiou de novo. Irritado, Pete Townshend não pensou duas vezes: ao microfone, chamou alguém da platéia que soubesse tocar bateria para terminar o show.

Um maluco de 17 anos, indicado pelo colega, chamou a atenção do guitarrista e a plateia insuflou Scott Halpin, petrificado de medo e vergonha, para subir ao palco. Halpin conseguiu de forma lamentável tocar três músicas e encerrar o trágico show.

Por ironia do destino, quando parecia ter tomando um pouquinho de juízo, mantendo-se na maior parte do tempo sóbrio, acabou morrendo acidentalmente em 7 de setembro de 1978, ao ingerir um excesso de pílulas que usada em tratamento contra o alcoolismo.

Formação original do Who: da esq. para a dir., Roger Daltrey, Keith Moon, John Entwistle e Pete Townshend (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Formação original do Who: da esq. para a dir., Roger Daltrey, Keith Moon, John Entwistle e Pete Townshend (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Moon estava feliz ao lado da modelo sueca Anette Walter-Lax. Tinha acabado de gravar e lançar “Who Are You”, álbum do Who mais voltado para a música pop e se mostrava em forma na bateria. No dia 6 de setembro tinha comparecido à premiére londrina do filme-documentário “Buddy Holly”, produzido e financiado por Paul McCartney. Passou longe da bebida, mas perturbou muita gente com assuntos desconexos e piadas bobas.

Outra ironia: quem mais o tolerou naquela noite foi Kenney Jones, baterista dos Small Faces e dos Faces (banda que tinha Ron Wood e Rod Stewart). Jones estava prestes a ficar novamente desempregado, depois do fracasso do retorno dos Small Faces em 1976 (o grupo acabara em 1969). Mal sabia que seria o substituto de Moon no Who, escolhido sete meses depois por Pete Townshend, mesmo com a oposição do vocalista Roger Daltrey.

Poucos bateristas chegaram perto da genialidade e criatividade do insano Moonie the Loonie – John Bonham (Led Zeppelin), Ian Paice (Deep Purple), Neil Peart (Rush) e mais alguns.

Seu discípulo, amigo e igualmente monstro e bêbado John Bonham preferiu outra vertente: investiu no peso e em uma técnica diferente que valorizava a pegada, e virou igualmente em lenda.

Pena que trilhou o mesmo caminho do companheiro, morrendo dois anos depois, também em um mês de setembro (de 1980),  após um porre homérico de vodca na casa de Jimmy Page, onde ensaiava com a banda.

P.S.: Como curiosidade, os amigos e lendas Moon e Bonham tocaram juntos em uma única vez, em 23 de junho de 1977, em Los Angeles, quase no final do show do Led Zeppelin.Foi nas músicas “Rock’n Roll” e  ”Moby Dick”, no bis, que inclui um longo solo de John Bonham. Os dois tocaram de forma divina em um momento raro do rock. É possível encontrar na internet vídeos de qualidade muito ruim sobre o evento, assim como a gravação em MP3. Abaixo, Moon tocando com Led Zeppelin em Los Angeles.

*Cortesia do site Combate 16Rock

 

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