Há 40 anos o Van Halen mudava o mundo da guitarra

Foi daquelas ocasiões em que quase todo mundo que ouviu no rádio parou o que estava fazendo, encostou imediatamente onde era possível. Foi daquelas ocasiões em que literalmente o mundo parou e prestou a atenção.

Primeiro foram os acordes da hipnótica “Runnin’ with the Devil”, com seu baixo marcante e sua guitarra faiscante e alucinante.

Pouco tempo depois, surgia a pesada “Ain’t Talkin’ ‘Bout Love”, com sua fusão eletrizante de solos e melodias e uma profusão de notas onde predominava um timbre de guitarra feroz e inédito.

E dessa forma, há 40 anos, chegava ao mercado “Van Halen”, a estreia da banda homônima californiana liderada por dois irmãos holandeses dispostos a repetir a sina de dois irmãos escoceses-australianos que empurravam com tudo o AC/DC.

Para o mundo da guitarra, o surgimento de Eddie Van Halen e sua virtuosa performance foi o fato histórico mais relevante depois do estouro de Jimi Hendrix.

Gente como Steve Vai, Joe Satriani e John Petrucci (Dream Theater) afirmam com todas as letras que Eddie redefiniu a música pop em em fevereiro de 1978 e transformou a maneira de como tocar uma guitarra de forma ousada, invetiva e criativa.

Não era apenas a busca por timbres novos e sonoridades diferentes, ou mesmo o aperfeiçoamento da técnica do tapping, que muitos outros praticavam desde o começo dos anos 70.

Eddie Van Halen desconstruiu o rock e o blues e mostrou ao mundo que era possível subverter a ordem trazer caos à teoria musical e instrumental.

O garoto holandês de pouco mais de 20 anos já encantava nas casas noturnas de Los Angeles, enlouquecendo todo mundo com suas performances estonteantes.

Era rock, era pesado, mas nenhuma banda tinha conseguido inserir um groove tão grudento em um som festivo, aparentemente simples, mas de alto apelo comercial.

A gênese do que viria a ser o Van Halen estava ali, naquele ano de 1975, em shows irados em uma pizzaria vagabunda da Sunset Strip, o Gazzari’s. Foi lá que o nome da banda explodiu localmente e a levou para os meses seguintes a cidades vizinhas.

E foi depois de mais uma apresentação no Gazzari’s que a fama do Van Halen chegou a Gene Simmons, o baixista e cantor do Kiss que já se ouriçava em expandir os horizontes, seja como produtor, seja como empresário.

Dois anos antes do lançamento do primeiro álbum, Simmons tentou levar os quatro garotos para o estúdio. Uma demo bem mais ou menos foi gravada, mas nada aconteceu.

David Lee Roth, mais ator do que cantor, mais performer do que um artista, era o vocalista que segurava a onda enquanto Eddie e o irmão baterista Alex Van Halen voavam.

Roth tinha fama de brincalhão, de festeiro, mas também de durão quando se irritava. Era genioso, mas no começo percebeu que não era boa ideia bater de frente com os irmãos. E com isso Eddie se tornou a grande estrela, como era Angus Young no AC/DC.

Van Halen em sua primeira e clássica formação: da esq. para a dir., David Lee Roth, Alex Van Halen, Eddie Van Halen e Michael Anthony (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Em 1977 o quarteto já estava nas garras do produtor Ted Templeman e da gravadora Warner. O produtor não foi com a cara de Roth, queria alguém como Freddie Mercury. De forma pouco usual, mas firme e sem discussões, Eddie e Alex obrigaram Templeman a engolir o amigo cantor.

Resolvidas as pendências, os trabalhos foram rápidos e o produtor teve a suprema sabedoria de valorizar cada som e e cada nota extraída das guitarras de Eddie Van Halen, quando a cama feita por Alex e pelo baixista Michael Anthony estabelecia a nova forma de como se ouvir hard rock nos Estados Unidos.

“Van Halen” é todo movido a guitarras quentes e estridentes, com um timbre único e inigualável.

“Runnin’ with the Devil”, que abre o álbum, é um cartão de visitas poderoso e incandescente, com uma linha de baixo maravilhosa. A instrumental “Eruption” é de cair o queixo, espantando todo mundo e transformando finalmente Eddie em um guitar hero.

“You Really Got Me” foi um dos grandes acertos – como se precisasse depois da música de abertura e de “Ain’t Talkin’ ‘Bout Love”. O clássico dos Kinks casou perfeitamente com o som pesado, mas energético, e foi mais um hit a catapultar o grupo para o topo das paradas.

Se os hits rápidos e pesados predominavam, o groove dava as caras na extraordinária e sacana “Janie’s Crying” e na grudenta “Ice Cream Man”, enquanto que o rock mais básico surgia em “Little Dreamer”, deixando o peso e a velocidade para as de tirar o fôlego “On Fire” e “Atomic Punk”.

Há 40 anos o mundo aprendia uma nova forma de tocar guitarra e uma nova forma de apreciar hard rock em clima de festa e de deboche. O primeiro álbum do Van Halen foi um tiro no alvo, uma das maiores estreias de uma banda de rock.

*Cortesia do site Combate Rock

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